Era uma vez uma família que tinha um blog. Podia ser o blog de uma família qualquer. Mas não era o blog de uma família qualquer. Era o blog de uma família que se chamava família Matos Silva Galvão Santos ou só família Galvão. Como todas as famílias, a família Galvao tinha muitas aventuras. E um dia lembraram-se de escrever algumas das suas aventuras neste blog. O tempo passa muito rapidamente, mas quando escrito, passa um bocadinho mais devagar e sabe bem ler e recordar.

domingo, 10 de maio de 2020

Memórias

Nunca sabemos o que nos vai marcar, o que vamos recordar, guardar, relembrar por vezes vezes sem conta, o que vamos esquecer, quão depressa o vamos fazer.

Nem porquê. 

O que irão os meus filhos recordar quando estiverem a deitar os próprios filhos? Quais destes momentos em família os farão sorrir, ressentir, duvidar, encorajar, reconfortar em noites de ventania como a de hoje? 

Olhem a árvore, meninos. Vejam como abana. Está frio, diz a Rita e enrola os bracinhos em redor de si mesma, apertados. Não, corrige o Manuel. Está frio lá fora. E sublinha o lá fora. Aqui dentro está quentinho. Abraço-os. Numa noite de ventania como esta, irá este abraço, escondido, esquecido nos anos que vão passar, ainda assim ter força para os aquecer? 

O Manuel tem uma memória gigante, com espaço para muita informação, muitos momentos e milhões de pequenos detalhes.

Algumas memórias recorrem, insistem, vêm tocar mais uma vez à porta da consciência dele e ele, uma vez mais, e mais uma vez já longe da hora de deitar, pergunta: Mãe, aquele senhor que encontraram congelado, era um nómada? Refere-se ao Otzi, um homem encontrado nos alpes nos anos 90, morto há mais de 5000 anos. Não sei, meu querido. Não sei mesmo. Talvez fosse. Mãe, mas as pessoas não morrem no cemitério? Não, querido. As pessoas morrem nos mais variados sítios. Depois são enterradas no cemitério. Mas vivem para sempre no céu, não vivem? Sim, meu amor. Claro que sim, querido. Então quer dizer que o nómada está no céu? Não o conheci pessoalmente, mas certamente estará. E como é que ele morreu? Morreu porque congelou? Não tenho a certeza. Penso que morreu numa batalha. E por lá ficou na neve, acabou por congelar.

Já estou arrependida de toda esta conversa, não só pelo carácter mórbido que não estou certa de não o estar a traumatizar, mas também porque olho para o relógio e vejo que já são 11 da noite. Perco a paciência e acabo a história do homem congelado com um grito abafado, para não acordar as irmãs. Vá, acabou, agora. Vamos dormir. Não quero ouvir nem mais uma palavra.

Quero ficar em silêncio, mas desconcertada, acabo por perguntar Meu amor, que obsessão é esta pelo nómada. Mas quem é que te falou nele? 

Ele abre a gaveta da sua gigantesca memória e informa-me.

Foste tu, mãe. Tu é que me contaste sobre o nómada congelado. Um dia quando eu estava a sair do banho, porque estava a ficar congelado.

Oh, céus.

Quanto daquilo que lhes digo (ou grito...) regressará para os assustar? 

Meu filho, nao te preocupes. Se voltares a ficar muito tempo no banho, nunca irás congelar. Transformas-te simplesmente em peixe.

Mããããe....

Quantas memórias nossas voltarão para os fazer sorrir?


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