Era uma vez uma família que tinha um blog. Podia ser o blog de uma família qualquer. Mas não era o blog de uma família qualquer. Era o blog de uma família que se chamava família Matos Silva Galvão Santos ou só família Galvão. Como todas as famílias, a família Galvao tinha muitas aventuras. E um dia lembraram-se de escrever algumas das suas aventuras neste blog. O tempo passa muito rapidamente, mas quando escrito, passa um bocadinho mais devagar e sabe bem ler e recordar.

quarta-feira, 27 de setembro de 2023

Amor de mãe

 Preferem a mãe quando estão doentes. Preferem a mãe para a história da boa noite. Gostam muito mais das festinhas da mãe antes de dormir. Até aqui tudo bem, transversal a todos os meus filhos e por isso já estou habituado.

A minha querida Sara, está num nível acima. Está no nível "complexo de Édipo invertido". Quando chego a casa e vejo os sapatinhos dela alternados com os da mãe em fila indiana não fico com ciúmes, não fico triste de não serem os meus. Fico tão feliz, tão feliz, tão feliz que só me apetece abraçar a pequenina com toda a força e amor que um abraço pode ter. À mãe também, porque sei bem os motivos da preferencia dos meus queridos filhos!

quinta-feira, 15 de junho de 2023

Rapazes e raparigas

Hoje em dia, não se pode falar em diferenças de género. Felizmente, um rapaz de 9 anos, observador, ainda pode falar sem filtros e chegar às suas próprias conclusões.

Manuel: Mãe, as conversas na escola acontecem sempre da mesma maneira.
Eu: A sério?
Manuel: Sim. As raparigas, quando estão sozinhas, só discutem sobre quem é a mais bonita. Os rapazes, quando estão sozinhos, só falam sobre futebol. Os rapazes e as raparigas, quando estão juntos, só falam sobre quem gosta de quem.

terça-feira, 8 de novembro de 2022

Primogénito

Às vezes, penso que pergunta apenas para me ouvir, a minha voz a afastar o escuro da noite e a trazer o aconchego suficiente para finalmente poder adormecer. Mas pergunta e ouve e pergunta ainda mais uma vez e ouve mais um pouco. História, ideias filosóficas, questões éticas, ciência e mais História e mais histórias da História e histórias nossas… sono e sonho adentro com uma sensibilidade e entendimento únicos.

segunda-feira, 7 de março de 2022

Felicidade

Saiu do banho e está em pé em cima da sanita. Estou a penteá-la e a pôr o creme, enquanto ouço as novidades do dia. - Mãe, tenho boas e más notícias. Quais é que queres ouvir primeiro? - Bom, as más, suponho... - hesito. - Okay. As más, então: A Joana não quer ir para o judo. - Certo - respondo-lhe, fazendo um ar grave. - As boas notícias... - começa ela a dizer muito devagar, enquanto sorri - é que... - e, de repente, continua, mas agora muito depressa - quando estava no ténis, o professor pediu para atirar a bola e acertar dentro de um arco, mas eu atirei a bola com tanta força que a bola passou por cima do arco, por cima da vedação do campo, por cima dos pais que estavam a assistir à aula, por cima da outra vedação e entrou no campo de futebol lá ao lado - (é um campo de andebol...) Desfaz-se numa explosão de gargalhadas, para se recompor três minutos mais tarde e continuar... - O professor ficou.. - faz uma cara de espanto, com boca aberta, mãos abertas em gesto interrogativo - E eu disse . Okay, professor. Se calhar, para a próxima vez, atiro com menos força!! E desfaz-se, novamente, em gargalhadas. - Estas foram as boas notícias? - pergunto eu, só para confirmar - Sim - diz-me ela ainda a rir. É tão bonita, tão feliz, tão espontânea, tão intensa. Abraço-a com muita força e sinto-me a mãe mais feliz do mundo.

Lógica própria

A Rita, que me lembre, sempre fez tudo ao contrário. Quero com isto dizer, que sempre fez tudo da forma mais original possível e o mais diferente possível do Pedro, de mim e do Manuel, também, que já cá andava há 16 meses quando a Rita nasceu. Dizem que todos os caminhos vão dar a Roma, mas aposto que nunca ninguém se lembrou de ir a Roma pelo caminho que a Rita escolheria se tivesse um dia de o fazer. E, aposto, chegaria lá. Com a idade que a Sara tem agora, ou seja, por volta dos dois anos, já ela fazia puzzels de encaixe, girando a base em vez de girar a peça e fazia questão de calçar os sapatos, trocando o esquerdo com o direito, com as tiras de velcro cruzadas. Este exemplo dos sapatos não era um engano, não era imaturidade. Era propositado e consistente - nunca calçava os sapatos nos respectivos pés. Quando, há pouco tempo, o Pedro lhe perguntou porque tinha usado os sapatos ao contrário durante tantos anos, respondeu, sem hesitar: Porque adoooro!!! Os exemplos repetem-se quase indefinidamente, numa originalidade tão típica da nossa princesa G.I.Jane. Com 6 aninhos, tem já um sentido de humor sofisticado, uma capacidade de argumentação admirável, está a aprender a ler e a contar e tudo, claro, com a sua lógica única, que nunca a deixa ficar mal. Porque, a verdade é que, contra todas as expectactivas, acaba sempre por funcionar. Lembrei-me desta questão agora por a ver a jogar ténis com o casaco ao contrário, todos os botões disciplinadamente alinhados... a meio das costas... claro :)

terça-feira, 8 de junho de 2021

Momentos

Desaparece à minha frente, correndo. Esquiva - se por entre os carros estacionados e por momentos deixo de o ver e arrependo - me de ter estacionado ali e não um pouco mais à frente ou um pouco mais atrás. Desaparece, correndo muito depressa, muito magro, os ombros e as pernas como que pintados a pincel, por detrás de uma mochila gigante que ele fez questão de levar com ele, porque hoje em especial está a mostrar como consegue ser responsável, a raquete de ténis a baloiçar na mão. Deixo de o ver durante uns instantes, mas logo reaparece a cabeça dele e o braço esticado a digitar o código. Corre de novo para a porta, abre-a pousando todo o seu pequeno peso na porta grande. Não olha para trás. Esguio, entra para dentro do prédio e eu deixo de o ver. Na minha cabeça, imagino o resto do percurso.

Espero um minuto e ligo para o Pedro. Ouço os gritos de felicidade dele a entrar em casa.

O nosso super-herói :) 

segunda-feira, 7 de junho de 2021

Conversas

A propósito de uma pergunta existencial da minha filha Rita

    - Onde estava eu antes de estar na tua barriga?

respondo-lhe com convicção que

     - Estavas numa nuvem à espera de nascer.

e para que não tenha dúvidas sobre a segurança da sua existência, acrescento

     - O pai e a mãe sempre souberam que queriam ter três bebés, vocês os três: o Manuel, a Rita e a Sara.

Mas ela tem as suas ideias metafísicas próprias e não se demora em corrigir - me

       - Não, mãe. É assim: eu estava numa nuvem à olhar para baixo e precisava de um pai e de uma mãe e escolhi o pai e escolhi-te a ti e também o Manuel. 

É mais uma vez a minha linda Rita a emprestar - me o seu olhar sobre o mundo. Subo a uma cadeira, faço o pino e recebo grata este olhar que tanto me enriquece, em flexibilidade, tolerância, criatividade, inteligência e amor. Obrigada, minha querida.