Era uma vez uma família que tinha um blog. Podia ser o blog de uma família qualquer. Mas não era o blog de uma família qualquer. Era o blog de uma família que se chamava família Matos Silva Galvão Santos ou só família Galvão. Como todas as famílias, a família Galvao tinha muitas aventuras. E um dia lembraram-se de escrever algumas das suas aventuras neste blog. O tempo passa muito rapidamente, mas quando escrito, passa um bocadinho mais devagar e sabe bem ler e recordar.

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Noites

O pão do Manuel começa por ser um carro, depois um avião, um barco e quando volta a voar já é um helicóptero. No banho tenta lavar-me os dentes. Enquanto me faz uma festa no ombro, diz Não tem medo, mamã, não faz dói-dói. Quando sai do banho, cada um dos seus dedos é um animal. Abre a mão e anuncia: este é um koolmees, este um coelho, este um mocho, este o backsoon e este um chichiau. Eu não sei o que é um chichiau. Ele diz-me que é um animal que mora no jardim e come chichimigas. Penso em todos os animais que conheço que moram no jardim e que comem formigas. Faço cinco tentativas falhadas. Ele não fica triste nem zangado. Diz calmamente que não a cada um dos meus palpites. Mostra-me no livro da savana. O chichiau é um pardal. E diz o nome na perfeição. Quando vou desejar boa noite, cada um dos meus beijinhos é também um animal. Ele guarda um beijinho mamute numa mão, um beijinho elefante na outra mão. Dá-me um abraço. Eu saio do quarto e ele enfia-se no berço da Rita que ja dorme. Ela dá um grito. Ele sai assustado e volta para a cama dele. Há já um mês que todas as noites ele arrasta o berco da Rita e encosta-o à cama dele. Esta tarde demorou duas horas a adormecer, levou os livros, os quadros, as fotografias, os bonecos dele e da irmã, levou tudo e empilhou na cama dele onde ele próprio já mal cabia. Duas horas. Eu desesperei. Cansada, com muita vontade de chorar por não conseguir nem dormir nem ser tolerante ou divertida, lá arrumei tudo sem lhe falar. Ele acabou por adormecer e eu demorei quase duas horas a voltar a respirar serenamente. A conseguir serenamente desistir da minha sesta. Isso foi à tarde. Está agora deitado ler o livro da savana, perna cruzada. Digo-lhe Manuel, tenta descansar. Ele finge que dorme. Eu fico comovida.

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